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Artigo

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A Previsão Atenua a Catástrofe

Nascimento dos Planos de Saúde

(Estudo Histórico Evolutivo)

Irany Novah Moraes

A doença e a dor tem sido, através dos séculos, companheiras inseparáveis do ser humano. Por esse motivo, a saúde é considerada como o supremo bem da vida. São atribuídos a deuses os ensinamentos originais sobre a arte de curar e os cultores das ciências da saúde ocuparam sempre, entre todos os povos, lugar de honra. A preocupação com a saúde coletiva, porém, é assunto bem mais recente. Quando a vida média humana aumentou, entendeu-se que, se fosse dada maior atenção aos problemas sanitários, grandes benefícios redundariam a favor da sociedade.

A idéia de que o Estado devesse prestar assistência a todo o cidadão deve ser atribuída a GUILHERME I (1797-1888) Rei da Prússia, tendo sido concretizada por BISMARCK (1815-1898), seu primeiro ministro, criador das “Caixas” de assistência a enfermos, aos acidentados e ao idoso. A idéia de BISMARCK parece ter sido a chave para a descoberta da possibilidade de atenuar a catástrofe pela previsão. O significado social desse fato foi tal que ultrapassou as próprias finalidades dos propósitos originais, criando condições para iniciativas análogas, embora distintas nas metas e estruturação.

Após o surto industrial ocorrido no fim do século XIX, verificou-se que a doença representava anulação ou diminuição da produtividade na indústria. Do ponto de vista individual, também sempre significava baixa na renda, paradoxalmente em paralelo com a exigência de maior necessidade financeira, decorrente do aumento de gasto, imposto pelo tratamento da referida moléstia. Durante centenas de anos essa situação caracterizava a doença como uma desgraça financeira imprevisível – verdadeira espada de Dâmocles pendente sobre as cabeças das pessoas responsáveis pela economia familiar ou, mesmo, pela própria subsistência.

A evolução dessas idéias foram lentas para tomarem forma. Embora LASALLE em 1863 tivesse pensado no atendimento individual através de meios coletivos obtidos por previsão, só em 1919 afinal, se firmou a noção de Seguro Social, após a assinatura do Tratado de Versalhes.

O “seguro” procura reduzir ou eliminar os danos de um risco mensurável em termos econômico-financeiros. Ora, como a doença redunda em perda de produtividade e representa diminuição no ganho, o seguro-doença pareceu lógico e perfeitamente aceitável. Curiosamente, entretanto, essa noção não conseguiu empolgar as coletividades, principalmente os indivíduos que tinham pequena renda. Provavelmente devido ao raciocínio imediatista de que o reembolso da renda perdida, em caso de doença, seria de qualquer modo insuficiente para cobrir os gastos, enquanto que o pagamento das cotas do seguro representava, imediata diminuição da renda na ocasião que já era baixa.

No século atrasado e nas duas ou três primeiras décadas do passado, o seguro só interessou aos patrões que, assegurando seus empregados, os garantiam contra prejuízos resultantes de sua imobilização forçada, decorrente da doença. O indivíduo e seus dependentes continuavam, porém, alheios às medidas de previdência.

No plano internacional, a preocupação com a saúde é de tal monta que em 1962 a OMS - Organização Mundial de Saúde, dedicou a seu programa de pesquisa médica, o crédito de um milhão de dólares e o governo dos Estados Unidos fez contribuição equivalente. Por esses dados numéricos pode-se sentir a atenção que passou a ser dada à saúde.

Nos Estados Unidos, em 1929, KIMBALL, verificava que os gastos hospitalares não estavam ao alcance das bolsas dos professores secundários da Escola onde seus filhos estudavam o que dificultava receber quando havia internações. Foi então que idealizou um sistema de “pré-pagamento” das despesas eventuais com doença. Diferia esse processo do “seguro” comum, pois em lugar de oferecer indenização em moeda, para ressarcir dos prejuízos decorrentes da enfermidade, oferecia cuidados para a cura da doença. Assim se criou a “Blue Cross” americana em 20/12/1929. O sistema era simples: o individuo filiado à “Blue Cross” pagava uma taxa correspondente à sua renda mensal garantindo 21 dias de hospitalização. Caso pagasse 344 dias sem auferir benefícios, os restantes dias eram pagos com desconto. O êxito do plano foi tão grande que, também, comerciantes começaram a se inscrever na “Blue Cross” sob cuja égide se formou a Associação dos Hospitais Grupados. Durante a crise de 1930, os benefícios prestados pelo plano à coletividade, foram imensos e, em 1933, a Associação Americana de Hospitais aceitou o sistema.

Dez anos mais tarde, isto é, em 1939, outra iniciativa do mesmo gênero teve lugar nos Estados Unidos: a “Blue Shield”, organização criada pela Associação Médica da Califórnia, que, oferecendo serviços médicos-cirúrgicos, completava a assistência total, pois a primeira só dava assistência hospitalar. Posteriormente, “Blue Cross” e “Blue Shield” se aproximaram e hoje tem direção comum. Em 1962, cerca de um quarto da população americana estava filiada às organizações, com indiscutíveis vantagens para a economia individual.

Não só nos Estados Unidos tal sistema teve êxito. Na Inglaterra, em 1944, teve início a resolução desse problema como iniciativa Estatal. CHURCHILL criou, em 1949-1950, o “National Health Service” no qual foram empregados 500 milhões de libras esterlinas e 95% da população se inscreveu. Todos os serviços médicos da Grã-Bretanha tinham sido nacionalizados em 1946. Em 1950 tinham passado para o “Seguro” 3.426 hospitais, só restando “livres” 147. Em 1960 uma avaliação dos resultados do sistema, decepcionou a expectativa pessimista de homens que tinham profetizado resultados negativos. De fato: nesses dez anos, o custo sofreu insignificante aumento; o equipamento hospitalar foi muito melhorado e modernizado; o nível profissional médico se manteve à altura ou ainda se elevou mais.

No Brasil, a situação foi curiosa. Instalados há mais de setenta anos, os “Institutos de Previdência” não conseguiram atingir suas finalidades; muitos contribuintes ficaram ao desamparo e a insegurança arraigando o espírito popular. É fato sabido que, mesmo no sul, onde os Institutos estavam em melhores condições de servir o contribuinte, no momento de necessidade de atendimento às deficiências eram e são grandes. A evolução tecnológica e a farmacológica progrediu muito. A medicina ficou extremamente mais cara agravando a situação.

Com a baixa renda média individual, o problema tomou proporções de suma gravidade. A rigor, pequeníssima parcela da população está em condições de arcar com o ônus da moléstia. O surto industrial do país, verificado a partir da metade do século passado, com a instalação de indústria automobilística e subsidiárias, de siderurgia e de desenvolvimento no setor de energia elétrica, agravou os acontecimentos no setor da assistência social.

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Faculdade de Saúde Pública da USP



A Faculdade de Saúde Pública da USP mantém um Curso de Administração Hospitalar desde a metade do século passado. O primeiro professor foi Odair Pacheco Pedroso que contava com a Profa. Dra. Lourdes de Freitas Carvalho que o sucedeu na cátedra.

Aqui entramos nós.

NICOLINO BARBÉRIO e IRANY NOVAH MORAES. Nesse curso, em 1960, na Turma Brasília, após prova de títulos e entrevista fomos aprovados e matriculados.



Curso de Administração Hospitalar

O Responsável por esse curso Prof. Dr. Odair Pacheco Pedroso era homem especial, seguidor de uma filosofia Estóica (Refugiar-se na própria alma, viver em exercício perene de auto-reflexão para corrigir o erro e aprimorar o espírito/ Marco Aurélio, séc.III d.C.). A convivência diária com ele, durante todo o curso, era em si magnífica lição de vida.

Mantinha ele um forte vínculo com a Fundação Kellog que enviava professores visitantes, altamente especializados, para ministrar blocos de aulas devidamente planejados e programados. Assim, tivemos durante meses aulas sobre Blue Cross e Blue Shield. Lembro-me perfeitamente que muitas vezes durante as aulas a cada idéia nova que era apresentada eu alertava o Nicolino, que sentava a meu lado, dizendo “é solução para o Brasil”! Ao término de cada aula solicitava a bibliografia usada pelo professor que sempre já tinha uma cópia dos artigos e me oferecia.

Durante o período letivo os feriados eram aproveitados, no lado mais longo da semana, para visitas a hospitais no interior do Estado ou nas cidades vizinhas onde íamos em veículos doados pela Kellog. Em cada Hospital ou Unidade de Saúde fazíamos o que era chamado “fichamento”. Seguindo roteiro impresso, procedíamos anotações precisas e completas de setores definidos vg Centro Cirúrgico, UTI, Laboratório Clínico, Unidade de Enfermagem, Serviço de Arquivo Médico e Estatística. Esse procedimento, repetido numerosas vezes, dava ao aluno pelo simples olhar a visão precisa se aquela unidade estava dentro das disposições legais exigidas.

O curso terminou em 1961 com estágio hospitalar no HC. Nós dois, Nicolino e eu tínhamos o estágio reduzido por trabalharmos naquele hospital e o conhecermos muito bem.

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CRISE: Perigo e Oportunidade

Dr. Irany Novah Moraes *

Crise é, para o médico, mudança repentina do estado de saúde de um paciente. Decorre do equilíbrio instável da luta entre o agente agressor e as forças de defesa existentes, mobilizadas pelo organismo. A manifestação clínica é brusca e indica o momento crítico para o doente pois pode evoluir para a cura rápida ou para a sucumbência. Tal quadro pode ser generalizado considerando-o não só para o organismo humano como também para o social ou mesmo societário.

O ideograma chinês, utilizado para transmitir a idéia de crise é composto de duas partes. A do alto da figura traduz perigo, serve de sinal de alerta pois, revela o risco iminente e a da base, oportunidade, significando possibilidade de solução, de melhoria, de refinamento e de purificação. Todo o conjunto tem em si uma grande lição: embora uma crise desgaste e, traga o risco de abalar uma entidade podendo aniquilá-la, por outro lado também, desde que superada, abre caminho para a melhoria, até mesmo evolução e progresso. É evidente que, para aproveitar a oportunidade, usa-se inteligência, bom senso, esforço e dedicação daqueles que tem competência e estão sinceramente interessados em resolver o problema e, que fundamentalmente tenham espírito público elevado.

Uma pequena digressão permite lembrar que, em nosso idioma, palavras de sentido opostos podem compor expressões equivalentes, às vezes até mesmo com algum matiz de ênfase. É exemplo que ocorre em uma de nossas praias onde uma “casa de força” alambrada, tem dois portões com placas de alerta onde, de um lado, está escrito “perigo de vida” e, de outro, “perigo de morte”. Vida e morte, vocábulos antagônicos, no caso, com o mesmo sentido, induzem para seu entendimento, um pensamento reflexivo. É o que está faltando e muito.

O momento atual é especial pois mobiliza os interessados que devem assumir sua parcela de responsabilidade. Tal sentimento generalizado, que se poderia chamar de consciência coletiva, torna o momento propício para reflexão. Lembro Paulo Duarte, jornalista que, ao lado de Júlio de Mesquita Filho, ajudou Armando de Salles Oliveira a fundar a Universidade de São Paulo, que relatou um diálogo que teve com Paul Rivet, Diretor do Museu do Homem de Paris, no seguinte teor: “se o marciano pudesse observar a Terra no momento em que a reflexão surgiu, ele não se admiraria da luz dos cataclismos e, nem da bomba atômica mas, se ofuscaria diante da luz da reflexão”.

Contando com essa energia, um raio de iluminação da inteligência dos homens públicos e, sobretudo a força moral que aliás, está se rarefazendo assustadoramente, nesse governo, é hora de deixar de lado interesses escusos pessoais e materiais para solucionar esse caos em que se encontra a aviação civil do país.

São Paulo é hoje uma base aérea anárquica. Passa avião de passageiros e de carga bem como, helicóptero por toda a cidade, todo o dia e o dia todo! Não respeitam nem as rotas oficiais. Informação é vocábulo que está mudando seu significado para enganação pois as autoridades não se avexam em dizer que “amanhã” estará tudo regularizado. Esse amanhã não chega, parece que titubeiam entre o perigo de vida ou de morte. Será que somente uma catástrofe vai ser necessária para responsabilizar tanta incompetência?




* O Dr. Irany Novah Moraes foi professor da Faculdade de Medicina da USP; é médico e autor de Erro Médico e a Justiça, RT, 5ª edição, 2003; e Tratado de Clínica Cirúrgica, 2 vol. 2300 pgs., Ed. Roca, 2005.

Jornal do advogado da OAB: Entrevista para a jornalista Carolina Carvalho

Prof. Dr. Irany Novah Moraes

www.moraes.med.br

Foi professor de Medicina da Universidade de São Paulo; É Autor de Erro Médico e a Justiça, RT, 5ª edição 2003 e Tratado de Clínica Cirúrgica, 2 vol. 2300 pgs. Ed.Roca 2005.

Escolho minha leitura com o seguinte critério: 1. Livros novos - algumas resenhas do Estadão  me induzem a adquirir certos livros novos;  2. Livros clássicos - que ainda não havia lido ou que de longa data havia lido e hoje sinto a vontade de ler ou relê-los; 3. Livros de meu acervo - motivado por alguém que apresenta alguma  dúvida sanável em livros que disponho levam-me a uma releitura rápida até encontrar a resposta à questão em pauta.

A maior preocupação ao se ler um livro novo é saber que ao comprá-lo não se compra o tempo para lê-lo e segundo Schopenhauer,  uma condição para se ler o que é bom é não ler o que é ruim, pois a vida é curta, o tempo e a energia são limitados.

Para saber quais  os livros que eu estou lendo no momento é necessário um comentário. Com a idade vamos sentindo que o tempo passa cada dia mais rapidamente, em compensação o momento aumenta muito. Este indica uma quantidade de tempo. Esse tempo, embora os dicionaristas digam que é pequeníssimo, em tais circunstâncias ele muda de dimensão. Esse tempo, com o tempo (do leitor), vai ficando mais longo. Motivo pelo qual nesse momento acabo de ler e de reler vários livros. Não teria a pretensão de fazer como Bernard Shaw que passeando e lendo, no Heid Park, ao terminar cada folha arrancava-a e jogava no lixo.  Um transeunte indagou-lhe porque destruía o livro? A resposta foi: não vou ter mais tempo de reler!

Schopenhauer, Arthur (1788-1860) - A ARTE DE ESCREVER, Editora L&PM, RS, 2006, 176 p. R$ 12,00; Tradução de Pedro Süssekind.

R. Filósofo alemão, que apresenta profundas reflexões, ensina a pensar, escrever, ler avaliar as publicações alheias.

  1. A obra é excelente.
  2. Tudo que trata de redação sempre me interessou. Mantive um curso de Metodologia Científica na Pós Graduação na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo durante 14 anos ininterruptos e que teve grande aceitação pelos alunos da Medicina, da USP e de Unidades das Universidades particulares.
  3. O Autor influenciou Freud e Nietzche, o que basta como referência.
  4. Recomendo a todos, cuja profissão os obriga a escrever e para aqueles que desejam aprimorar sua maneira de redigir, de raciocinar para clarear as idéias!

Englund, Steven – NAPOLEÃO UMA BIOGRAFIA POLÍTICA, Jorge Zahar Editor, RJ, 2005, 630 p. R$79,90; Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges.

R. O autor é americano e fez uma biografia tão bem feita que os franceses gostaram.

R. Ótimo livro que analisa a vida política de Napoleão que era ficcionado na leitura de Plutarco.

R. Napoleão é uma figura fascinante. Sua vida é, hoje, 200 anos depois ainda muito estudada pelos biógrafos.

R. Todo jovem deve lê-lo, é empolgante.

R. Sempre será relevante para se conhecer a história da França, da cultura, da cidadania e da liberdade.

R. Se os franceses gostaram é suficiente para nos entusiasmar.

R. Acho que todo jovem deve saber muito sobre Napoleão, pelo menos para que quando forem a Paris e visitarem a Tumba de Napoleão entendam o motivo pelo qual estão se curvando para vê-la.

Deutscher, Isaac – TROTSKI: O PROFETA ARMADO,1879-1921, Editora Civilização Brasileira, RJ, 2005, 592 p. R$ 65,90. Tradução Waltensir Dutra.

R. O personagem Bronstein era de família judia, abastada. Em 1902, desejou ir a Londres para estar com Lênin e teve, para sua segurança, que arranjar um passaporte falso e um pseudônimo. Ocorreu-lhe adotar o nome de seu carcereiro, na última prisão em Odessa – Trotski. O nome obscuro desse guarda ficou famoso nos anais da história desse protagonista.

R. Obra ótima.

R. Quem deseja aprimorar sua cultura deve lê-lo.

R. A Tradução é excelente.

R. Cultura sempre tem relevância, pois é o que se sabe depois de esquecer o que se aprendeu.

Max Weber – A ÉTICA PROTESTANTE E O ESPÍRITO DO CAPITALISMO - Livraria Pioneira Editora, SP. 1967, 233 p. Tradução M. Irene de Q.F. Szmrecsányi e Tamás J.M.K. Szmrecsányi

R. É um clássico. Quem não leu ainda, ou quem já o leu deve lê-lo ou relê-lo.

R.Trata-se de economista e sociólogo alemão de grande influência internacional e sempre atual.

R. Promotor de uma sociologia dita “compreensiva”, objetiva, sem julgamento de valores.

R. Os clássicos são sempre relevantes.

Alípio Corrêa Netto A DOENÇA DO ALEIJADINHO – Editora Mestre Jou, SP, 1965, 126 p. Prefácio de Paulo Duarte.

Recentemente um parente do autor procurou-me para saber sobre o livro referido pois desejava contestar alguém que apareceu na mídia para dizer que tinha descoberto a real doença do Aleijadinho.

O Prof. Alípio, em 1965 publicou o referido livro. Com base nas descrições feitas pelos seus historiadores que descreveram a doença mutilante do artista e sua grande atividade social. Na época todos conheciam bem a lepra e tinham por ela grande repulsa, nem mesmo aceitavam a entrada desses doentes nas igrejas. Esses dois fatos são suficientes para afastar a lepra como a doença de Antonio Francisco.

O horror do leproso é multimilenário. Através das épocas esses infelizes foram banidos do contacto com seus semelhantes sadios.

Baseado nesses fatos a doença do Aleijadinho deveria ser outra que não a lepra. Assim, Alípio, profundo conhecedor das doenças vasculares, encontrou na trombangeite obliterante a doença que explicava com exatidão a que Antonio Francisco tinha. Eu próprio tratei de um paciente com trombangeite obliterante, que aparece em seu livro à página 103 e que como fumante inveterado vinha periodicamente ao ambulatório do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, para amputar um segmento gangrenado de seus membros.

Recomendo a leitura desse livro àqueles que desejam conhecer um raciocínio científico para elaborar uma obra na área da medicina, particularmente no campo da cirurgia vascular e angiologia, que afinal serviu para corrigir um erro histórico.

Pitigrilli, Dino Segre – O COLAR DE AFRODITE – Coletânea de pensamentos compilados por G. Blasset, Editora Vecchi, RJ, 300 p;

Pitigrilli, Dino Segre – DICIONÁRIO ANTI-LOROTEIRO - Editora Vecchi, RJ. 215 p; Tradução Marina Guaspari.

Pitigrilli, Dino Segre – O FARMACÊUTICO A CAVALO - Editora Vecchi, RJ. 219 p. Tradução Marina Guaspari.

Esses três livros de Pitigrilli são clássicos do autor italiano que com sarcasmo trata de situações do cotidiano. É um complemento cultural que todos devem ler um dia!

Enxergar o que não se vê

PROF. DR. IRANY NOVAH MORAES

Ver e não enxergar é comum;

ver e enxergar, é habilidade;

enxergar o que vê é inteligência,

mas enxergar o que não se vê, é privilégio.

Todo professor tem, em seu íntimo, a permanente preocupação em ensinar. Assim, procura as mais variadas formas para atingir seu objetivo, seja despertando interesse, estimulando motivação para abrir a mente dos jovens. A lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional regulamenta o que deve mas não como deve ser ensinado. Nesse ponto é que está a diferença entre os professores. Apenas aqueles que se preocupam como se deve é que se distinguem a ponto de fazerem “escola”. São virtuosos, idealizam métodos para educar seus alunos, sabendo que eles precisarão ter muitas habilidades para adquirirem competência a fim de se desenvolverem na profissão. Nessa diferença de preparo é que está o papel superior da universidade: abrir a mente! Com mente aberta o indivíduo adquire mais facilmente, capacidade de se adaptar e assim, seguir o preceito de Darwin que diz: “não vence o mais forte mas sim o mais adaptável!”

A comunidade acadêmica, seja docente ou discente deve estar imbuída da relevância de seu papel na sociedade. Para objetivar essa mensagem vou dar exemplos da anatomia onde ocorre o primeiro impacto do aluno com a futura profissão e que para ele costuma ser o início da realização de seu sonho. É freqüente o aluno pensar equivocadamente que estão lhe ensinando o que não é importante e assim, critica a anatomia por se tratar de matéria essencialmente decorativa e por esse fato, de menor importância.

Cabe aqui uma pequena digressão para comentar a expressão moderna “de cor”e para enfatizar vem complementada com e “salteado” significando bem memorizado advém do fato dos romanos antigos acharem que a memória estava no coração. Os que assim pensam não se dão conta de que tudo que se sabe é decorado. O próprio nome também é. Assim, não há de se ver mal algum em decorar. Entretanto, muitos dos que se fixam nessa crítica primária não se aperceberam que muito além desse ensinamento a anatomia desenvolve no aluno outros predicados. Algumas exigências no ensino evidenciam certo treinamento elevado do intelecto. Todos sabem que o objetivo do curso superior é habilitar o indivíduo e torná-lo capaz de resolver problemas com que vão deparar no decorrer da vida, problemas esses até mesmo inimagináveis nos dias de hoje!

Muitos exemplos poderiam ser apresentados para comprovar tais ensinamentos entretanto vou me ater apenas a alguns para que o leitor, a partir deles, faça reflexões e encontre outros de sua própria experiência, que na ocasião não se deu conta de estar aprendendo, sem se aperceber, algo mais que literalmente não estava na lista de pontos do programa.

Cinco exemplos são apresentados a seguir:

1- Plano Geral de Construção do Corpo Humano

Este plano obedece cinco princípios a saber: a) simetria bilateral;b) metamerização; c) formação tubular; d) estratificação; e) variação dentro da normalidade.

  1. Simetria bilateral – O plano sagital mediano divide o corpo em duas metades, grosseiramente simétricas, chamadas antimeros. Tal simetria é mais aparente no exterior de que no interior do corpo.
  2. Metamerização - A superposição de elementos que se assemelham morfologicamente, é nitidamente visualizado na coluna vertebral.
  3. Formação tubular – a partir da coluna vertebral, de onde saem prolongamentos para trás e para frente formando o primeiro o tubo neural e o segundo, o ventral, é o tubo visceral. Esses dois tubos se antepõe constituindo a chamada paquimeria visceral e neural respectivamente. Ambas são envolvidas pelo tubo tegumentar.
  4. Estratificação – As várias camadas a partir do osso são: I- músculo; II- aponerose; III- tela cutânea, descrita por STERZI (1912) fica entre a pele e a “fascia muscular” constituída pela camada limitante profunda e a “areolar” superficial, ambas separadas pela facis superficialis.
  5. Variação dentro da normalidade – Dentro da normalidade pode-se considerar ainda o grande princípio da variação.

Ao aprender o PLANO GERAL DE CONSTRUÇÃO DO CORPO HUMANO obedecendo a todos os seus princípios o aluno aprende, muitas vezes, mesmo inconscientemente que a natureza não programou órgão por órgão, nem mesmo sistema por sistema e muito menos, ainda, aparelho por aparelho formando um conjunto extremamente embricado para que seja visto pelo médico ao examiná-lo de maneira global e não apenas por órgão, sistema, aparelho ou tecido.

Tendo a visão holística ele, sem muito esforço, vai ipso facto lembrar que esse indivíduo tem família, pertence a uma comunidade e integra sempre um universo maior.

2- Relevos da base do crânio

Quando se está estudando os relevos da base do crânio como as saliências e os orifícios, seja por dentro ou pela face inferior, identificando quais as artérias, veias ou nervos que por ali passam, de onde vêm e para onde vão, além de se aprender, o fato em si, mentalmente se tem a consciência da tridimensionalidade das estruturas do corpo humano.

Aprende-se por esse exercício intelectual o que se deve fazer para se identificar a minúcia dentro do contexto maior, fixa-se a idéia tridimensional do ser humano que integra estímulos de sensibilidade partindo de um extremo, processando a mensagem no sistema nervoso e ainda emitindo a ordem para execução a distancia e se for importante, ou necessário, registrar esses dados na memória!

Recentemente testemunhei um neurocirurgião, Marcelo Campos Moraes Amato (agosto/2006), desejando imaginar como atingir determinadas estruturas procurava conseguir um crânio e o encéfalo para mentalizar espacialmente essas estruturas a partir dos três eixos: sagital mediano , transversal e crânio podálico.

3- Teoria vertebral do crânio

Dentro dessa mesma linha de pensamento e com o mesmo objetivo: entender as semelhanças das diferenças, senti a necessidade de aprofundar a matéria, fato esse que torna oportuno tratar dessa teoria.

Pode-se dizer que, numa fase muito primitiva do embrião, haja analogia, ou seja, equivalência de forma entre os ossos da coluna vertebral e aqueles que constituem, no adulto, o esqueleto cefálico. Tais modificações, observadas nesse segmento da coluna vertebral, relacionam-se, diretamente, com a evolução e crescimento de seu conteúdo. Assim, o encéfalo condiciona o esqueleto que o contém, a um desenvolvimento adequado para envolvê-lo.

No homem, bem como em alguns animais superiores que têm, também, o sistema nervoso desenvolvido, os arcos dorsais das vértebras primitivas afastam-se para formar a cavidade neural. Para completar a abertura, assim estabelecida, surgem ossos de origem membranosa. Esse fato não ocorre nos animais inferiores com cérebro pequeno.

Goethe, em 1790, elaborou a chamada teoria vertebral do crânio. Confidenciou-a, em cartas particulares, a Oken, que as guardou durante vinte anos, divulgando-as depois, como idéias próprias. (Veja como o ser humano sempre foi o mesmo no artigo que publiquei em O Estado de S. Paulo, 28 de janeiro de 1993 – É preciso passar a limpo a USP). Tal teoria foi arquitetada em torno da idéia de ser o crânio constituído de tantas vértebras modificadas quantas são suas peças. Certas particularidades, como ocorre no osso occipital, induzem ao fácil entendimento de sua analogia com vértebra, ou seja, o occipital tem função equivalente à de uma vértebra. A base desse osso em tudo se assemelha a uma verdadeira vértebra – é uma vértebra modificada.

A corda dorsal do embrião corresponde à coluna primitiva; suas marcas estão nos corpos vertebrais e seus resquícios embrionários, persistentes no adulto, correspondem ao núcleo pulposo dos discos intervertebrais. Embora possa haver uma linha de analogia imaginária ao longo de toda a coluna vertebral até o dorso da sela túrcica, no esfenóide, daí para cima os ossos do crânio não são mais homólogos às vértebras, esvaece a semelhança. O esqueleto deixa de ser metamerizado, mas continua segmentado. O estudo do embrião oferece elementos que permitem estabelecer limite entre a parte metamerizada e a segmentada.

Se por um lado uma revisão autogenética permite esse raciocínio, também, a filogênese propicia outros elementos sugestivos de sua veracidade.

Assim, a anatomia comparada mostra, nos animais superiores, por serem dotados de maior vida de relação, maior desenvolvimento do esqueleto ósseo ao redor do sistema nervoso central, em detrimento das dimensões do esqueleto da face. Essa visão é mais evidente quando se comparam os ossos da cabeça do homem com os de certos macacos.

O crânio no homem, possui uma porção metamerizada adquirida secundariamente. Em teoria, o embrião evolui da seguinte forma: o crânio primitivo, sendo insuficiente para conter o encéfalo, tão desenvolvido no homem, necessitou englobar certos ossos vizinhos para ampliar-se. As vértebras da porção superior da coluna foram assim incorporadas. O crânio adquiriu então, uma porção, provinda das vértebras modificadas, situadas acima da vértebra atlas. A cúpula craniana é fechada por outro contingente de ossos neoformados.

Nos animais inferiores, o neurocrânio se reduz ao paleocrânio, enquanto no homem, além deste, há ainda o neocrânio. O contingente pertencente ao paleocrânio é essencialmente segmentado, e satisfaz a teoria vertebral do crânio, ao passo que o neocrânio tem uma porção vertebral secundariamente adquirida – occipital -, e outra não vertebral – cúpula craniana – de origem desmal.

O osso occipital compõe-se, no mínimo, de duas peças vertebrais. A abóbada craniana tem uma porção secundariamente formada. O primitivo neurocrânio é, no princípio, de origem exclusivamente cartilagínea, por ser formado pela coluna vertebral modificada em sua parte superior, que persiste nesse estado, nos animais inferiores onde o condrocrânio é suficiente para conter o encéfalo. Nos animais mais evoluídos, que apresentam aumento do encéfalo, aparecem ossos de origem membranosa, constituindo o democrânio, em quase totalidade, a calota craniana.

O conhecimento dessa teoria exige profunda reflexão para enxergar nessa evolução filogenética do estojo vertebral a construção da estrutura protetora do sistema nervoso e assim, perceber o quanto a natureza é sábia.

4- Identificação dos dentes

Sempre foi prática boveriana seguida por Renato Locchi o exercício de memorização tátil, para estudar os dentes a ponto de se poder identificá-lo, pela palpação sem auxilio da visão. De certa forma, talvez pela repetição freqüente, lembre o hábito religioso, muito mais comum entre os povos do Oriente Médio, de com um “terço” nas mãos ficarem tocando uma a uma de suas peças. Em um saquinho de pano contendo os trinta e dois dentes humanos exercitava-se a identifica-los: incisivos, caninos, pré-molares e molar, sabendo se do maxilar ou mandíbula e ainda, se do lado direito ou esquerdo!

Trata-se de um exercício de interpretação tátil, extremamente difícil, mas que, talvez, pelo seu contingente lúdico nunca foi aborrecido e sempre despertou certa competição entre meus colegas de turma para saber quem acertava mais vezes.

Evidentemente esse tempo gasto, voltando aquela época, treinava o aluno a exercitar seu cérebro, aprender a sentir “vendo pelo tato”, memorizar dessa maneira pois na verdade representava um exercício intelectual.

Tal habilidade tátil, indiscutivelmente dava aquele que se divertia com esse exercício, excelente discernimento para palpar e sentir, pulsos extremamente finos,decorrentes de estenoses a montante, com arritmias e perceber frêmitos. Apenas para ilustrar essa habilidade lembro-me que o PROF. ALÍPIO CORRÊA NETTO contava que um colega de sua época, recebeu uma bolsa para estudar clínica médica na Alemanha. Voltou com muitos conhecimentos mas também uma especial habilidade para delimitar a projeção torácica da área cardíaca pela palpação superficial deslizando os quatro dedos da mão sobre o precórdio.

Qual o demérito de se adquirir também, essa habilidade? Evidentemente no mundo moderno com tantos exames não invasivos e dando tantas informações ela não resiste a indagação central do legislador romano que pergunta “qui bono?” (a quem serve? A quem beneficia?

5- Grandes vias sensitivas e motoras

O estudo final da neuranatomia ligando, de maneira global, todas as estruturas aprendidas do sistema nervoso, dá ao aluno a integração completa entendendo assim, as vias por onde passam os impulsos, conscientes e inconscientes que mantém nossa vida animal.

Permite entender onde, dentro da complexa arquitetura do sistema nervoso, uma pequena lesão pode separar uma vida, mantendo o paciente na vegetativa e desta para a morte; porém, passando ou não pelas múltiplas etapas decorrentes de lesões nos diversos pontos do sistema nervoso.

É difícil aceitar o comportamento daquele que aprendeu essa fascinante integração e que depois de médico não examina corretamente o doente e vê, apenas o local da dor, sem considerar o paciente como um todo.

Esse fato faz a diferença do médico que examina o paciente e daquele que receita apenas tendo em vista a queixa.

6- Administração da emoção

Como não se sabe ensinar bom senso, muito menos se consegue imaginar como ensinar a administrar emoções. Esta é a resposta sistêmica de um estímulo captado por qualquer dos órgãos dos sentidos. O estímulo da visão, ouvido, odor, sabor, tato, calor ou frio, dependendo da natureza e intensidade depois de processado no tálamo desencadeia instantaneamente um estímulo pela via simpática que na medular da glândula adrenal lança adrenalina no sangue e assim estabelece a reação de alarme! Como se pode ensinar alguém controlar suas respostas? É realmente muito difícil, entretanto no curso médico tudo começa na primeira aula e durante seis anos todos os dias o sofrimento, a dor e a morte estão presentes. O médico não se torna insensível, mas aprende a conviver nesse contexto e assim, criar forças para servir de apoio ao doente e seus familiares.

Vou reproduzir duas aulas clássicas de anatomia de introdução ao curso médico. Tratam-se das aulas inaugurais nos “campus” de São Paulo Prof. Renato Locchi e de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo ministrada pelo Prof. GERSON NOVAH., resgatada esta por FÁBIO LEITE VICHI, em Reminiscências de um médico, 3ª ed. Ribeirão Preto, SP, p. 91 a 93, 2001.

PROF. RENATO LOCCHI

A Aula Magna ministrada por Renato Locchi, que eu assisti, alertava para o intensivo e adequado aproveitamento do tempo, que passava muito rapidamente para permitir conhecer todo o corpo humano, de maneira suficiente para ser médico. Chamava a atenção para o fato de que íamos estudar no cadáver e que este merecia o mais absoluto respeito. No transcorrer da aula num gesto amplo, firme e contínuo, retira o lençol branco, descobre a mesa e, sobre o mármore, estava o cadáver de uma jovem negra. O mesmo com o qual Alfonso Bovero havia dado sua aula inaugural há algumas décadas.

O impacto desencadeado pela exposição abrupta do cadáver impressionava profundamente o jovem; sua mente entrava em conflito para, de relance, entender o tempo de vida e o tempo de morte. A mulher de 28 anos, de face delicada, semblante triste, plácido, fixado em formol há mais tempo do que teve de vida, estava permanentemente imutável.

Locchi, com palavra erudita, de timbre vibrante, gesticulação incisiva e viva marcava esse momento na memória do aluno. O jovem tinha a sensação de estar entrando em um mundo místico, onde a morte estava presente para ensinar os segredos da vida. Ele aprendia a respeitar os restos mortais, fragmentados pela dissecação, como sendo parte do corpo de seu semelhante. Evidenciava-se a crueldade da vida que pela vicissitude o colocara na condição de “peça” para estudo. Restava ainda a impressão do destino estar cobrando, depois da morte, o ônus que, talvez em vida, ela tivesse causado à sociedade, da qual era vítima. Aquelas circunstâncias marcavam para o futuro médico seu início na luta sem trégua contra a morte. O momento era conduzido graças à fulgurante personalidade de Renato Locchi e duas enormes forças se conflitavam: a vigorosa energia da juventude ali presente, atenta e perplexa de um lado, e a frieza da morte do outro. O aluno sentia-se como se estivesse participando do ritual de sua iniciação para o sacerdócio da medicina.

Após a aula inaugural procedia-se à visita ao Laboratório: - 1. A Sala de Bovero – A sala do Professor Alfonso Bovero era mantida como ele a deixara. Lá estavam: seu longo avental, amarelado pelo tempo; o apontador e a mesa de trabalho. A visita a esse local era feita com respeito e em absoluto silêncio. Dava a impressão de se estar em um altar de uma Catedral. – 2. Busto de Bovero – A memória de Bovero, mantida permanentemente pelo seu busto de olhar severo, estrategicamente localizado no saguão do Laboratório, garantia a sensação de sua onipresença naquele ambiente. – 3. Biblioteca - A biblioteca da Anatomia estava no roteiro de visita dos alunos. Locchi exibia o acervo, com orgulho de mostrar o mais valioso monumento de culto a seu fundador. Inicialmente, ele apresentava a coleção de livros raros. Mostrava a seguir a coleção de Índices e Catálogos usados para a pesquisa bibliográfica, no campo da Anatomia. Gabava-se das coleções de revistas estarem completas e sem nenhuma falha. A seguir indicava a estante dos tratados clássicos. Extrema satisfação se evidenciava quando entrava em um recesso da Biblioteca onde, em altas estantes e em prateleira corretamente classificadas, estavam caixas contendo a mais rica coleção de separatas de publicações de pesquisas. Bovero havia iniciado meticulosamente essa coleção de documentos e Locchi vinha contribuindo permanentemente para sua atualização. – 4. Museu de Peças – A estação seguinte da Via Anatômica era o Museu de Peças, cuidadosamente iniciado por Bovero e com a participação de todos os anatomistas que trabalhavam naquele laboratório. Museu riquíssimo em peças das mais variadas preparações. Cada uma, das muitas diafanizadas, representa centenas de horas de trabalho. A coleção de peças do sistema linfático é preciosa; há também muitas conservadas por outros métodos. Integra ao acervo uma coleção de mil e quinhentas peças, constituídas de línguas e laringes, minuciosamente catalogadas quanto ao grupo étnico, sexo e idade pelo próprio Prof. Bovero. Uma coleção de máscaras de gesso de índios brasileiros faz parte do patrimônio do Museu. – 5. Museu de Ossos – A outra parada ocorria no Museu de Ossos, onde mais de uma centena de esqueletos completos estão catalogados e guardados em gavetas adequadas. Dois comentários eram feitos: um mostrando um crânio de adulto negro masculino, onde as arcadas dentárias estavam completas e íntegras e outro, numa vitrine adquirida na Alemanha, com a reprodução de um esqueleto de feto com todos os seus ossos, incluindo os ossículos do ouvido médio, e, em seguida, mostrava outra semelhante, feita por um funcionário do Laboratório que, embora não dispondo de formação alguma, tinha grande habilidade, muita dedicação e amor ao que fazia.

A Reforma Universitária levando os cursos básicos para os Institutos transferiu parte desse patrimônio histórico da Faculdade de Medicina da USP para o Campus da Cidade Universitária no Instituto de Ciências Biomédicas.

PROF. GERSON NOVAH

“Meus alunos:

Ao ingressardes nesta Faculdade, passaste por um exame austero, competente e rigoroso; seu resultado se traduz eloqüentemente na vossa presença atual neste recinto; nessas expressões felizes de vitória e de esforço compensado. Sabeis que a vitória e o esforço trazem direitos irretorquíveis. Quero falar-vos um pouco desses direitos. O primeiro deles, certamente muito grande embora não o maior, é que vos assegura nesta cadeira, um estudo mais tranqüilo, quase despreocupado, sem perigos de infecção cadavérica, sem perigos de contágio, risco e perigos esses totalmente afastados pelo advento da formolização dos cadáveres.

Alguns de vós, menos contido, mais ligeiro no julgar e mais pronto no sorrir, achareis banal, quase corriqueiro, insignificante mesmo esse direito, uma verdadeira contraposição ao grande esforço que de vós foi exigido. Não tendes razão, se lembrardes que a Anatomia passou por dias negros e difíceis, por um passado assustadoramente trágico, numa época em que a opinião pública dominada por um misticismo até certo ponto respeitável, mas, nada esclarecido, vedava terminantemente o estudo de Anatomia em cadáveres.

Aquele que a praticasse estaria sujeito a sanha justiceira e primitiva de uma horda sanguinária de místicos prontos a perpetuar a mais primária das justiças... ou antes a mais primária das injustiças...

Porém anatomistas de então, gênio-mártires do saber, afrontando os perigos de serem considerados violadores de cadáveres, ao cair da noite protegidos pela treva, auxiliados pela luz baça da lua – esta eterna cúmplice do coração – esses anatomistas, dizia, associavam-se aos abutres dos campos para o furto dos cadáveres de criminosos justiçados que em árvores sombrias, oscilavam como estranhos pêndulos do relógio da justiça humana.

Furtada a presa, já putrefata algumas vezes, outras ainda sangrando, o notívago usurpador, arriscando-se a toda sorte de infecções, a infecção cadavérica, aos perigos imanentes à empresa, sem meios e conservação, realizava sobre o angustiante peso de tantas ameaças, as grandes descobertas que honram e engrandecem a ciência anatômica.

Outras vezes os fatos se passavam diferentemente; justiçados os criminosos, seus corpos deviam sofrer um sepultamento regular. As dificuldades agora eram maiores; era mister que vândalos clandestinos praticassem no próprio cemitério, à noite, a exumação do cadáver, porém, conhecida a intenção, grupos de choque se organizavam, armados e escondidos, rondavam entre tumbas à espera dos exumadores; os encontros eram terríveis e muitas vezes fatais.

Nessa época um conhecido anatomista inglês foi procurado por um homem que propunha a venda do corpo de um justiçado que deveria ser sepultado ainda aquela tarde, furtado à noitinha e entregue, na mesma noite, àquele homem de ciência.

Este inquieto, impaciente, sozinho, via as horas se passarem sem que qualquer notícia chegasse. Já a noite se intrometia pela madrugada, quando no silêncio pesado o bater aflito e violento da porta anunciou a chegada do mensageiro; um vulto, com manifesto esforço, com dificuldades trazia às costas um outro inerte, largado, sangrante ainda. Quem trazia o cadáver não era o contratante; era um vulto feminino, imagem da dor e sofrimento; de inquietação e desespero; de martírio.

Houvera luta, o cadáver não pudera ser furtado; a premência do sustento no lar daquela mulher era grande; seu marido, o contratante, tombara morto no encontro. Aquela representava a última contribuição financeira do esposo, ali estava seu cadáver para ser vendido...Histórias trágicas e no entanto simples incidentes isolados e esparsos da grande tragédia da Anatomia.

Voltemos aos vossos direitos. Um segundo direito soubestes conquistar, meus alunos. O direito de ter deveres, e, entre os deveres, um há que excede a todos; o respeito ao cadáver e à austeridade do ambiente. Lembrai-vos que a formação do médico e sua vida inteira se plasma na morte e na dor; junto ao cadáver ou junto ao leito do enfermo. Como num cemitério, num departamento de Anatomia entra-se com o coração e com a alma. Naquele, em desespero e dor, neste com respeito e gratidão. Lembrai-vos que aqui a ‘a morte se compraz em socorrer os vivos’, lembrai-vos que no convívio com a morte encontramos muitas vezes um sentido para as nossas próprias vidas.

Não trateis o cadáver como simples e mero material de estudo. Contemplai na face gelada, descorada, quase transparente do morto, na serenidade do semblante, como o esconder-vos a amargura do náufrago ou a agonia de um sofrimento prolongado; contemplai nesse corpo descamado, nesses membros piedosamente abandonados e caídos, alguém que talvez vivesse ainda ontem; alguém que como nós teve infância, família, carinho, lar, alguém que foi criança e que foi jovem; que teve tristezas e alegrias, esperanças e desilusões, mas que diferentemente de nós, que contamos com a cumplicidade de um destino favorável no nascimento, no crescimento, na educação e na instrução, para eles o estranho jogo do acaso reservou apenas o lugar de marginais da fortuna, de náufragos sociais, de farrapos humanos.

Lembrai-vos que a eles faltou tudo, até mesmo o olhar amigo e acolhedor, que amargurado embora, pudesse receber, no angustioso e extremo instante, o último apelo, a última súplica, o último lampejo. Lembrai-vos ainda que por mais onerosos, inúteis, prejudiciais ou nocivos que tivessem sido esses espólios da humanidade, o serviço que agora prestam ao bem comum, a esta e às gerações futuras, bem lhes redime a culpa por terem sido os desajustados de sua geração.

Meus alunos: estes conselhos não são novos, nem minhas estas idéias. São conselhos e são idéias que falam ao coração e a nobreza jamais desmentidas da juventude. São por isso propriedade comum, são universais. Atendei-vos, é o meu pedido, atendei-vos é o vosso imperativo. Eles não deixarão de falar à sensibilidade de futuros médicos.

E lembrai-vos ainda, ou tendes já neste instante a sensibilidade de médico, ou não a tereis jamais. Hoje é o verdadeiro dia de vossa decisão profissional; se não sentis digno da vocação sacerdotal, para o nosso bem, e mais que isto para o vosso bem, cruzai hoje pela última vez os umbrais estreitos desta porta que representam os umbrais da iniciação médica, porque se não trazeis dignamente as vestes do noviciado jamais vestireis com dignidade o manto sagrado do sacerdócio”.

As aulas apresentadas evidenciam a carga emocional que o jovem de dezoito anos recebe no primeiro dia de aula. ele sente a impressão que passou pelo ritual místico da admissão a vida sacerdotal da profissão.

No decorrer dos anos subseqüentes seu contato em cada etapa do curso é uma lição para administrar a emoção. Assim: na anatomia topográfica com o cadáver inteiro, cabelos raspados e conservado em formol, na anatomia patológica com cadáver ainda com cabelo e sem conservação. Na enfermaria o paciente morrendo e a família chorando ao lado.O médico assim convive com a dor, sofrimento, e com a morte. Embora não acostume pois a cada episódio ele também morre um pouquinho! Assim, ele se contém e nesse sofrimento íntimo aprende a administrar a dor e consegue ser o amparo do seu paciente e da dor alheia. Nesse exercício cresce e desenvolve a força para continuar firme na profissão.

Por falar em vida sacerdotal é conveniente lembrar a interpretação de Alípio Corrêa Netto sobre o sacerdócio afirmando que nada tem a ver com não remuneração do trabalho mas sim com devoção a ele.

7- Últimas palavras aos jovens

  1. Se o leitor for médico jovem, não sentiu o que aprendeu na anatomia, sem se dar conta, ainda há tempo, exercite sua memória, resgate esses ensinamentos e faça suas reflexões.
  2. Se nada disso ocorrer julgue sua escola. Ela ainda lhe deve isso, cobre-a!
  3. Porém, se a memória não falhar você não sentir esse algo mais, lembre-se que “somente se deve falar quando a mensagem for melhor do que o silêncio”, prometa, para si mesmo, que quando falar aos jovens transmita mensagens positivas, eles não merecem lamúrias e frustrações pessoais.

8- Realidade nacional

  1. As boas escolas devem ser estimuladas para serem ótimas.
  2. Novas escolas com potencial comprovado de serem ótimas devem ser bem-vindas.
  3. Mas as más escolas mesmo que sejam gratuitas devem ser fechadas. São inadimplentes. Só dão diploma e não formam nem médicos e muito menos cidadãos.

*

Teoria Vertebral do Crânio

Prof. Dr. Irany Novah Moraes

Renato Lochi foi o maior didata que conheci. Uma de suas mais belas aula magistrais, no Departamento de Anatomia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, foi sobre a teoria vertebral do crânio. Reproduzir um fragmento, tirado das anotações que guardei durante meio século, é a melhor homenagem que lhe posso prestar, para comemorar seu centenário, pois que nasceu a 7 de maio de 1896, em Anhembi, São Paulo.
Assim vejamos: uma vértebra, apreciada em separado, tem um corpo e dois pares de prolongamentos, formando arcos, sendo um anterior ou ventral — arco visceral — e outro posterior ou dorsal — arco neural —. A série dos corpos vertebrais considerados, colocados uns sobre os outros, resultara em um eixo. O conjunto dos arcos viscerais formará a cavidade visceral, enquanto o dos arcos dorsais, a cavidade neural. Esta contém, o sistema nervoso central, cujo desenvolvimento, em sua extremidade superior determinará modificações no esqueleto. Embriologicamente, pode-se dizer que, numa fase muito primitiva, haja homologia, ou seja, equivalência de forma entre os ossos da coluna vertebral e aqueles que constituem, no adulto, o esqueleto cefálico.
Tais modificações, observadas nesse segmento da coluna vertebral, relacionam-se diretamente com a evolução e crescimento de seu conteúdo. Assim, o encéfalo condiciona o esqueleto que o contém a um desenvolvimento adequado para envolvê-lo.
No homem, bem como em alguns animais superiores que têm, também, o sistema nervoso desenvolvido, os arcos dorsais das vértebras primitivas afastam-se para formar a cavidade neural. Para completar a abertura, assim estabelecida, surgem ossos de origem membranosa. Esse fato não ocorre nos animais inferiores com cérebro pequeno.
Goethe, em 1790, elaborou a chamada teoria vertebral do crânio. Confidenciou-a, em cartas particulares, a Oken, que as guardou durante vinte anos, divulgando-as depois, como idéias próprias. Essa teoria foi arquitetada em torno da idéia de ser o crânio constituído de tantas vértebras modificadas quantas são suas peças. Certas particularidades, como ocorre no osso occipital, induzem ao fácil entendimento de sua analogia com vértebra, ou seja, o occipital tem função equivalente à de uma vértebra. A base desse osso em tudo se assemelha a uma verdadeira vértebra — é uma vértebra modificada.
A corda dorsal do embrião corresponde á coluna primitiva; suas marcas estão nos corpos vertebrais o seus resquícios embrionários, persistentes no adulto, correspondem ao núcleo pulposo dos discos intervertebrais. Embora possa haver uma linha de analogia imaginária ao longo de toda a coluna vertebral até o dorso da sela túrcica, no esfenóide, dai para cima os ossos do crânio não são mais homólogos às vértebras, esvaece a semelhança. O esqueleto deixa de ser metamerizado, mas continua segmentado. O estudo do embrião oferece elementos que permitem estabelecer limite entre a parte metamerizada e a segmentada.
Se por um lado uma revisão autogenética permite esse raciocínio também, a filogênese propicia outros elementos sugestivos de sua veracidade.
Assim, a anatomia comparada mostra nos animais superiores, por serem dotados de maior vida de relação, maior desenvolvimento do esqueleto ósseo ao redor do sistema nervoso central, em detrimento das dimensões do esqueleto da face. Essa visão é mais evidente quando se comparam os ossos da cabeça do homem com os de certos macacos.
O crânio no homem possui uma porção metamerizada adquirida secundariamente. Em teoria, o embrião evolui da seguinte forma: o crânio primitivo, sendo insuficiente para conter o encéfalo, tão desenvolvido no homem, necessitou englobar certos ossos vizinhos para ampliar-se. As vértebras da porção superior da coluna foram assim incorporadas. O crânio adquiriu então uma porção, provinda das vértebras modificadas, situadas acima da vértebra atlas. A cúpula craniana é fechada por outro contingente de ossos neoformados.
Nos animais inferiores o neurocrânio se reduz ao paleocrânio, enquanto no homem, além deste, há ainda o neocrânio. O contingente pertencente ao paleocrânio è essencialmente segmentado, e satisfaz a teoria vertebral do crânio, ao passo que o neocrânio tem uma porção vertebral secundariamente adquirida — occipital —, e outra não vertebral — cúpula craniana — de origem desmal.
O osso occipital compõe-se, no mínimo, de duas peças vertebrais. A abóbada craniana tem uma porção secundariamente formada. O primitivo neurocrânio é, no princípio, de origem exclusivamente cartilagínea, por ser formado pela coluna vertebral modificada em sua parte superior, que persiste nesse estado, nos animais inferiores onde o condrocrânio é suficiente para conter o encéfalo. Nos animais mais evoluídos, que apresentam aumento do encéfalo, aparecem ossos de origem membranosa, constituindo o desmocrânio, em quase totalidade, a calota craniana.
Locchi, com palavra erudita, timbre vibrante, gesticulação incisiva, dedo em riste, transmitia a luz da inteligência de Goethe, que enxergou a unidade dentro da variedade. Assim, ensinava ao jovem como procurar as leis que regem os fenômenos da natureza, estimulando, com entusiasmo, o permanente crescimento intelectual daqueles que tiveram o privilégio de conviver com ele e se tornaram seus eternos admiradores.

Teste Egométrico

Estuda a variação, com a idade,

da resistência à massagem do ego.

A Sociedade Brasileira de Clínica Médica em sessão solene para Homenagear aos Grandes Nomes da Medicina, realizado em 15 de junho de 2006 conferiu-me essa distinção. Embora tenha sempre seguido, com rigor, o sábio gnoma: fale apenas se a sua mensagem for mais forte do que o silêncio diante das circunstâncias que envolvem esse momento sinto-me obrigado a romper esse preceito.

Quatro são os motivos que me levam a essa atitude. O primeiro deles é o grande prestígio da sociedade que está conferindo esse preito. O segundo é a oportunidade escolhida: a grandiosidade da solenidade de abertura de um Congresso Internacional com seis mil participantes. A terceira justificativa é estar junto a uma plêiade de colegas de primeira linha dos quais uso o nome do Prof. Bussamara Neme, talvez o decano desse grupo e que foi meu professor na Faculdade de Medicina da USP, para congratular-me com os demais homenageados. A quarta razão é ser indicado como um dos Grandes Nomes da Medicina. Nesse ponto o ego foi atingido em cheio. Foi fulminante!

Eu não sabia que massagem no ego pudesse causar tão forte emoção, mas os professores Antonio Carlos Lopes e Alexandre Gabriel Jr. sabiam pois, programaram essa homenagem em oportunidade que estariam presentes clínicos e cardiologistas de alto gabarito para atender a qualquer urgência!

Todo esse preâmbulo é para evidenciar o quanto estou comovido e assim externar minha profunda gratidão.

Diante dessa experiência que estou vivendo e a título de reconhecimento sugiro ao Dr. Alexandre que proponha a um de seus orientandos que pesquise um novo exame para estudar as variações com a idade da resistência à massagem do ego e indicar a faixa de segurança nos diversos níveis de longevidade. É o que se poderá chamar de Teste Egométrico, nada tendo a ver com a ergométrica de pleno domínio dos senhores, no qual nós cirurgiões somos menos versados.

Como já estou entrando na faixa de risco é prudente parar. Aqui fico!

Meus profundos agradecimentos.

Irany Novah Moraes

Lei do Terço

Dr. Irany Novah Moraes

Foi professor da USP, é Médico e Editor do

TRATADO DE CLÍNICA CIRÚRGICA,

335 col. Roca, 2005.

Em 1958/1959 usufrui uma bolsa de estudos do Governo Francês / Capes na Universidade de Strasbourg, na Alsácia. A Segunda Guerra Mundial havia terminado em 1945 e a, guerra fria, iniciada em 1947, estava no auge. Todas as bases militares americanas sediadas na Europa mantinham-se em alerta constante.

A estratégia para minimizar eventual ataque aéreo de surpresa, obedecia ao que chamavam de lei do terço que implicava na permanente manutenção fora da base de um terço da frota. Assim, os aviões ficavam no ar preparados para bombardear, imediatamente, o inimigo.

Era inverno, frio de – 20°C, muita neve, dias curtos, sombrios, o sol não aparecia e noites muitos longas. Os aviões da base militar próxima iam e vinham até a Checoslovaquia. Produziam um ruído tenebroso, intermitente, durante o tempo todo. Era lúgubre e melancólico, mas no íntimo sentia-se que estavam para nos proteger.

Hoje, em plena paz, temos em São Paulo os efeitos deletérios de nossas aerovias que passam sobre bairros estritamente residenciais, mesmo distantes do Aeroporto de Congonhas, como no caso do Alto dos Pinheiros, onde aviões e helicópteros passam a baixíssima altura, seja pela manhã, tarde, noite ou madrugada. Há momentos que se tem a impressão de estarem dentro de casa!

É obvio que o problema tem solução, basta que as aerovias passem pelos rios, grandes avenidas, bairros industriais, comerciais, ou ainda até mesmo sobre áreas residenciais, em níveis mais elevados, e distribuindo o ruído homogeneamente entre todas.

A lei do terço era para proteção; nós temos a lei dos três terços para agressão.

***

Professor Doutor César Timo-laria (25/07/1924 – 27/06/2005)

Tenho a honra, e o orgulho, de ter sido colega de turma – a 15ª Turma da Escola Paulista de Medicina, a nossa gloriosa “Escolinha”, de 1952 – do César, sua estrela maior.

Fui testemunha do esforço, suor e sacrifício que custou ao César se formar em Medicina. Tendo que trabalhar, por necessidade, durante todo o seu brilhante curso Médico, à noite, foi discotecário da extinta Rádio Kosmos, hoje América, de início, e, depois, revisor do jornal “Folha de São Paulo”, até o final de seu curso.

Filho do humilde, mas radicalmente honesto casal Maria e Luiz Timo-laria hauriu, com o leite materno, os rígidos princípios de honradez, integridade, decência e brio que nortearam toda a sua vida.

Sem nenhuma crença religiosa (só acreditava na ciência), embora respeitando todas elas, era visceralmente honesto e foi um dos homens mais decentes e dignos que conheci em minha já longa existência.

Tinha horror aos medíocres; dizia-me sempre que dos professores que nada exigiam – os “bonzinhos” – nenhuma lembrança ficou, mas que se recordaria sempre, com saudade e carinho, dos que exigiam que estudasse.

Sabia, porém, dar valor aos que o tinham; assim, orientou e formou uma plêiade de estudantes em seus cursos de Pós-Graduação, Mestrado e Doutorado, ajudando alguns financeiramente até, sem disso jactar-se ou disso fazer praça. Seu sonho, aliás, como me confidenciou, era que seus inúmeros alunos continuassem seu trabalho e suas pesquisas.

A reforma que fez no Departamento que dirigiu por tantos anos na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – foi o fundador da Neurociência brasileira – deixou admirado a todos que dela tiveram conhecimento.

O Professor Doutor César Timo-laria quase foi aposentado, em 1975, pelo governo militar de então, denunciado que foi, por um “colega”, como comunista!...

Fluente em Inglês, Francês, Espanhol e Italiano, tinha o Português escorreito, atiço, castiço.

O discurso com que recebeu os novos membros eleitos em 2002 para a Academia Brasileira de Ciências é uma peça de arte oratória e de erudição. Tenho comigo, aliás, um escrito seu em que ele dá uma verdadeira Aula Magna de Gramática e Língua Portuguesa.

Freqüentava os clássicos: Machado, Corção, Castro Alves, Dostoieviski, Dante, Shakespeare, Cervantes (ele que foi verdadeiro Dom Quixote a lutar contra os moinhos de vento das, muitas vezes, dinossáuricas instituições científicas não só do Brasil); gostava, e muito, também de músicos como Beethoven, Tchaicovisky, Mozart e do maior de todos, J. S. Bach.

Um dos últimos abencerragem de nossa Cultura e de nossa Ciência, tinha acendrado amor pela nobre profissão que exercia com tanta paixão e tanto dar de si; ensinar era sua vida.

Acolitado por sua dedicada esposa Mariazinha, companheira de mais de cinqüenta anos – ninguém poderia querer melhor escudeira – percorreu, praticamente, o mundo todo, dando suas magistrais aulas e conferências nessas ocasiões.

“ O que superioriza o caráter de um homem é a firmeza de princípios. Ser útil, obriga a ser bom; leva a ser firme; ser firme, significa ser forte. Neste instante histórico da vida humana em que rareia a abnegação pessoal desprendida de alto idealismo, no qual cresce, avassaladora, a onda de egoísmo, quando um indiferentismo sem norte e sem honra por vezes substitui convicções e os mais altos interesses espirituais e quando o homem se sente, muitas vezes, traído é belo e reconfortante recordar a vida daqueles que trabalham na messe da Ciência com C maiúsculo, como você, preluzentíssimo integrante desse exército” querido amigo.

A Revista Ciência e Saúde, órgão oficial da INCISA, em seu número 15, de Abril/Junho de 1999, que homenageia o Prof. Dr. César Timo-laria traz em seu bojo, além de numerosos artigos do grande professor, dois outros a seu respeito: um da Dra. Marisa Amato que termina com uma frase que, na minha opinião, é um verdadeiro achado: “Esse é o Professor César Timo-laria”. E era mesmo Doutora Marisa; e outro, do também grande Professor Irany Novah Moraes, luminar de nossa Ciência Médica ele também, que tem como mote a frase latina do poeta Virgílio: “Felix qui potuit rerum cognascere causa” (Feliz é quem sabe da razão das coisas) no qual, além de discorrer sobre o que é ser paradigma, o Prof. Irany fala do mais ilustre Professor de Fisiologia da elite cultural médica de nosso país, o Prof. Dr. César Timo-laria.

Você, César, que com tanto estoicismo, um estoicismo ímpar, e que com tanta dignidade enfrentou a inelutável doença que, por cruel ironia do destino o vitimou, vai em paz querido amigo. Que a generosa terra brasileira que agora o recebe em seu seio, lhe seja leve. Como diz o Eclesiastes: “Sua memória durará, para nós, tanto quanto o sol”.

Como você mesmo disse em sua poesia “Ciclo”: “saudade, dor derradeira”.

Essa é a dor que ficará conosco; ficarão, porém, também, conosco, os exemplos de sua vida modelar.

Você cumpriu, com brilho inexcedível, a missão que tinha a cumprir aqui. Só as descobertas que trouxe para a nossa Ciência Médica sobre o sono (descobriu o centro gerador do sono, o fator natriurético atrial, os mecanismos que regulam rigidamente a glicemia, e o mecanismo da fome, entre outras tantas descobertas), bastariam para marcá-lo; mas você fez muito mais: espirituoso e eclético, até sobre a história da pizza escreveu!

Obrigado por ter existido e nos ter dado a todos nós, tantas lições, César!

Até um dia, AMIGO!

Newton Alves

Dr. Vital Brasil Mineiro da Campanha

Dr. Alexandre Amato

 

 


 

Nascido em Abril de 1985, em Campanha, Minas Gerais, Vital Brasil Mineiro da Campanha trabalhou muito para conseguir estudar Medicina, formando-se em 1891 pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.

Dedicou-se com tal afinco pela ciência que chegou a contrair peste bulbônica e febre amarela nos seus trabalhos.

Ao formar-se, partiu para a França, especializando-se, em Paris, nos estudos de laboratório, com os professores Mesnil, Metchinikoft, Borel e Roux.

Ao regressar para o Brasil, espantou-se com a quantidade de vidas perdidas com picadas de cobras e passou a estudar o assunto dedicando a ele todas suas energias. Em 1898, no Instituto Bacteriológico de São Paulo, preparou os primeiros soros eficazes contra os venenos de crotalos e bothrops. No ano seguinte, Adolpho Lutz, sugeriu ao governo a criação de um instituto soroterápico, que veio a ser o Instituto Butatã, oficializado em 1901, dirigido por Vital Brasil.

Em 1919, mudou-se para Niterói, onde fundou o Instituto de Higiene, Soroterapia e Veterinária, hoje Instituto Vital Brasil.

De seus seis filhos, todos se dedicaram à medicina e pesquisas. Um deles, seguindo a determinação do pai, faleceu vítima de uma infecção contraída ao realizar pesquisas sobre estreptococos.

Várias de suas obras se destacaram, como O ofidismo no Brasil (1906), A defesa contra o ofidismo (1911).

Faleceu em Maio de 1950, aos 85 anos, como um dos maiores cientistas brasileiros. E, ao se tornar imortal, teve seu nome “abrasileirado”, de Dr. Vital Brazil, passou a ser chamado Dr. Vital Brasil.

A Escola dos Anos Dourados

 

Edgard Steffen

Publicado no jornal “O Cruzeiro do Sul” e no “Anuário 2001” da Faculdade de Medicina de Sorocaba

Formado pela primeira turma da Faculdade de Medicina de Sorocaba em 1956

Ex-docente de Parasitologia Médica

 

 


A Faculdade de Medicina de Sorocaba nasceu de sorocabanos que ousaram sonhar e conseguiram trocar seus sonhos por um objetivo, atingido e ultrapassado. A história de nossa faculdade já foi muito bem contada e documentada pelo Dr. Hely Felisberto Carneiro em seu Livro “ A Faculdade de Medicina de Sorocaba e os 50 Anos de sua história”.

Tendo sido contada a história, convidado a escrever sobre a Faculdade de Medicina de Sorocaba em seus cinquenta anos, nos restou contar a estória. Não nos julguem saudosistas. O saudosismo nos impele sempre a achar que os tempos bons fazem parte do passado. Não existem “aqueles bons tempos”... existem apenas realidades diferentes.

Sorocaba, dos anos 50, era uma cidade grande mas guardava as características de simplicidade e informalidade do interior paulista)maximizadas por sua origem tropeira. Era grande pelo número de seus habitantes, pela geração de riquezas e pelo seu equipamento social. Cidade das indústrias (que geravam emprego e riqueza) e das escolas (que permitiam a instrução e formação de sua juventude) carecia do ensino universitário. Enquanto sua escola médica era sonhada, gestada e nascida, os bondes circulavam modorrentos desde a Rua dos Morros até o Cerrado; os guardas-civis, em seus uniformes azuis, cuidavam da ordem e do trânsito; compravam-se frios e laticínios na Mercearia Jacomino, fazia-se a barba e o cabelo no Salão Telles, discutia-se a instalação da semana inglesa, a pasteurização do leite e a política local. Os jornais cuidavam de assuntos como o resultado dos exames do Ginásio Estadual (Estadão), as reuniões e transcrição das palestras do Rotary Clube, a instalação do Banco do Estado de São Paulo na Rua Monsenhor João Soares. Nosso povo vibrava com a vitória de seus filhos: Prof Arthur Fonseca, sendo aprovado em 3° lugar no concurso estadual de ingresso ao magistério secundário; o “five” (como os jornais escreviam) sorocabano de basquete com Campineiro, Paschoalick, Sete Belo, Didi, Alonso era praticamente imbatível no interior paulista; Nilson Ferreira Leão convocado para a seleção paulista de natação e posteriormente sagrado campeão e recordista pan-americano. A Praça Cel. Fernando Prestes era palco dofooting dos jovens. Outros clubes poderiam ser mais animados, mas o palaciano da cidade era o Sorocaba Clube. Nas noites boêmias, nos bares da moda, podia-se ouvir a afinada e empostada voz do Ireno Hanser, a voz e os acordes do Luiz Violão ou o violino do Vicente Centenário. Os jornais tratavam de todos esses assuntos além da política local com seus conflitos. Apesar de pacata, nossa cidade, nunca foi politicamente amorfa; partidos proibidos pela conjuntura da época, costumavam influenciar e decidir eleições.

Do ponto de vista médico-sanitário, os anos não eram assim tão dourados. O uso dos antibióticos ainda incipiente e oneroso; os jornais inseriam propaganda de empresas que se propunham a importar penicilina, estreptomicina e dihidroestreptomicina. Inseriam também apelos à caridade pública para aquisição desses antibióticos para tuberculosos pobres. Freqüentemente noticiavam campanhas feitas por entidades locais para aquisição de medicamentos e insumos para o Hospital de Tuberculosos. Os serviços de saúde viviam às voltas com a proliferação de mosquitos gerando veementes protestos; na memória sorocabana continuava vivo o horror da febre amarela do início do século e da malária que grassou até a década de 40, tendo inclusive sido a causa da morte de um de seus mais ilustres prefeitos (Quinzinho de Barros). Terrenos sujos e saneamento básico deficiente não faziam Sorocaba diferente da maioria das cidades do interior paulista naquela época.

Para os 110 000 habitantes, a cidade contava com 430 leitos de seus 4 hospitais gerais. A construção do Sta Lucinda, doado pelas Indústrias Votorantin, acrescentaria 100 leitos que iriam servir ao ensino médico. Médicos de bom nível técnico, inclusive notáveis cirurgiões, militavam em suas clínicas particulares e nos iapês (previdência). Alguns deles viriam a participar do corpo docente da faculdade. As especialidades eram poucas, limitando-se à oftalmo-otorrinolaringologia, dermatologia, pediatria, cardiologia, tisiologia, radiologia e análises clínicas. A ortopedia, assim como a ginecologia-obstetrícia, era usualmente exercida pelos cirurgiões. As anestesias, ministradas pelas freiras e/ou pessoal de enfermagem. Sempre que possível, usava-se a anestesia local ou a raquianestesia aplicadas pelos próprios cirurgiões. As transfusões, realizadas segundo os tipos sanguíneos da classificação de Landsteiner, eram feitas diretamente do doador ao receptor, utilizando-se o conceito de doador universal. Passado meio século, poder-se-ia inferir que esse quadro limitante da assistência médica seria vencido pela natural evolução da profissão médica. A conclusão nos parece óbvia mas temos uma certeza: a vinda de uma faculdade para Sorocaba apressou esse tipo de desenvolvimento. Anestesia, Banco de Sangue, Ortopedia, Cirurgia Torácica, Cirurgia Infantil, Anatomopatologia e outras especialidades foram se instalando com a velocidade de funcionamento das respectivas cadeiras na Faculdade.

A esperança de vida, para quem aqui nascesse, era de 55 anos e a razão de mortalidade proporcional – que mede os óbitos de maiores de 50 anos – era de 28%(praticamente a metade da razão de mortalidade proporcional da capital do Estado). A mortalidade infantil hoje situada entre 15 a 20 por mil nascidos vivos – devia estar em torno de 100 ou mais por mil. Nas cidades vizinhas a situação era pior: grande parte dos municípios da região sul do Estado de S Paulo não tinha nem hospital nem médico residente. Acreditamos – ao lado do idealismo de seus fundadores – essa constatação constituiu forte argumento na escolha de Sorocaba para sede de uma escola médica. Pensava-se que a interiorização do curso médico, resultaria naturalmente na interiorização dos profissionais. Ainda não se conheciam trabalhos mostrando que a mortalidade infantil variava mais com a presença de agência bancária que com a presença de médico nas comunidades. Um parêntese, no dia 18/3 a agência do Banespa também comemora o cinqüentenário de sua atividade em nossa cidade.

Para terminar, no dia 4 de abril de 1 950, a manchete do Cruzeiro do Sul alardeava: “O Presidente Dutra concedeu autorização para funcionamento da Faculdade de Medicina de Sorocaba ainda este ano”. A notícia fora dada ao prefeito Gualberto Moreira pelo Dr. Novelli Jr., deputado federal ituano e ligado à família do Presidente Dutra. O que os jornais não contam: essa adesão do Presidente foi conseguida num lance de ousadia de Gualberto Moreira e do Padre André Pieroni.

Tratando do assunto no Ministério da Educação, souberam que se o Presidente Dutra concordasse, a faculdade sairia do papel. Fizeram plantão perto do Palácio do Catete, dormindo num táxi desde a madrugada. Quando o madrugador Marechal Dutra saiu para sua andada matinal, sofreu a abordagem. Eram anos dourados de paz e democracia, mas os seguranças que impediriam a aproximação de um paisano, nem desconfiaram que aquela batina preta, vindo em sua direção, teria a ousadia de abordar o Presidente e entregar-lhe os documentos relativos ao funcionamento da nossa Faculdade.

Apesar da autorização, a Faculdade de Medicina somente começou a funcionar no ano seguinte... mas isso já é outra estória.




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